Chiquinha do Congo
Chiquinha do Congo
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Seu nome era a Princesa Chica de Kimpanzu, filha do Rei Manuel II Nimi a Vuzi Kimpanzu do Congo.
Havia sido raptada no Congo e chegou ao Porto do Rio de Janeiro em 1740, batizada como Francisca e vendida como escrava uma semana depois do desembarque.
Tinha apenas 20 anos.
Teve o espírito, a honra e o orgulho destruídos ainda na viagem de barco.
Chegou grávida não se sabe de quem no Brasil.
Sua filha, ela chamou apenas de Chiquinha, e a menina ficou com a mãe por um tempo.
Chiquinha enquanto ficou com a mãe, todas as noites no seu colo dormia ouvindo da mãe apenas algumas palavras…
“Você é a Princesa de Kimpanzu, nunca se esqueça minha filha…”
Chiquinha logo foi separada da Mãe e vendida como escrava para um novo dono da Região de São Paulo onde hoje é conhecida como Cidade de Itú.
Chiquinha, a filha, em 1760 também foi mãe e como ela agora se identificava como Chica, chamou sua menina de Chiquinha como ela tinha sido quando criança.
E manteve a tradição oral de sua mãe Princesa Chica Nimi a Vuzi Kimpanzu e todas as noites amamentava sua filha e lhe dizia…
“Nunca se esqueça, você é a Princesa de Kimpanzu…”
Em 1780 Chiquinha, a neta, também foi mãe e como também ela agora era adulta, chamou sua menina também de Chiquinha para manter a assim a tradição da família que dizia “Desde o Congo três Chicas choram e o poderoso Nzambi Mounhu não responde…”.
Em 1800 Chica, a bisneta, estava com 20 anos e também foi mãe e como era tradição entre elas chamou sua filha de Chiquinha e também para a sua menina quando dormia, lhe dizia todas as noites “Nunca se esqueça, você é a Princesa de Kimpanzu…”
E assim quase que religiosamente a cada 15 ou 20 anos nascia uma nova Chiquinha que era embalada por sua Mãe Chica que chorando as noites embalava sua filha e dizia as mesmas palavras de sempre.
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Meados de 1840 chegara ao Siqueiro um novo senhor de terra, se tratava de um descendente de um antigo fidalgo português, cujo pai mantivera alguma amizade com a Coroa, e que havia recebido do próprio menino Imperador terras no Brasil, uma parte no Siqueiro outra parte em Itú, seu nome era Nicolau Francisco Martins.
Nesta ocasião ele tinha já vários filhos, um deles se chamava Francisco Nicolau Martins, meu trisavô.
Após viagem ao Rio de Janeiro para receber em mãos a graça e o favor do Imperador Dom Pedro II, passou na região de Itú para ver as terras recebidas e ao chegar em Laguna comprou novos escravos na Região Central, e partiu para conhecer as terras do Siqueiro também obtidas pelo favor imperial.
Lá chegando, imediatamente começou a construção da Casa Grande.
Desta viagem para o Rio de Janeiro, trouxe na bagagem, maneira de dizer, uma escrava menina ainda, chamada Chiquinha, de apenas 10 anos de idade, órfã de Mãe recente, que se o leitor lembrar era a tetraneta da Princesa Chica de Kimpanzu, filha do Rei Manuel II Nimi a Vuzi Kimpanzu do Congo.
E esta menina cresceu e foi escrava no Siqueiro e cresceu junto com o menino escravo Pedro também de 10 anos, ambos escravos do jovem herdeiro do Siqueiro que era mais ou menos da mesma idade pois nascido em 1830.
Onde o senhorzinho Chicolau, como era chamado, caminhava, seu par de escravos, a menina Chiquinha e o menino Pedro, o acompanhavam.
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E assim o tempo foi passando…
Tempos de criança…
Tempos de subir em árvore…
Tempos de tomar banho no riacho…
Seguido de tempos de serem adolescentes, que foi quando Pedro se apaixonou por Chiquinha, e Chiquinha se apaixonou por Pedro, tudo como dizem, a saber, a proximidade traz consigo a paixão no coração dos incautos.
Até que um dia se viram jovens, Pedro um jovem de beleza negra bruta, e Chiquinha de uma beleza negra encantadora…
Foi nesta época que para tristeza de todos o olhar do senhorzinho Chicolau para com a menina Chiquinha, deixou de ser um olhar puro…
E quando um jovem dá espaço ao diabo, logo o coração lhe é tomado por um desejo irresistível de fazer o que a concupiscência da carne quer.
Ainda mais ele, filho predileto de seu pai.
E ele desejou Chiquinha de forma tão intensa que não sossegou enquanto na mata, na ausência de Pedro a quem tinha mandado para cumprir uma ordem na Casa Grande, defraudou a honra da menina-jovem Chiquinha, que naquela triste noite, em prantos enquanto abraçava suas próprias pernas no escuro de um canto do estábulo, consolada por um abraço tímido de Pedro que também chorava, mas com o ódio no coração, silenciosamente Chiquinha chorava e dizia repetidas vezes…
“Agora desde o Congo seis Chicas choram e se o poderoso Nzambi Mounhu não respondeu os seus clamores é porque ele na verdade não existe e não protege ninguém…”
Na semana seguinte, desiludida do até então pra ela, Todo Poderoso Nzambi Mounhu, e agora continuamente procurada pela lascívia do senhorzinho Chicolau, para fugir dos ataques de seu senhorzinho, Chiquinha conseguiu pela primeira vez ir à Missa em Pescaria Brava.
Ficou no lado reservado aos escravos, e ouviu o Padre que abriu o livro sagrado e leu um texto que dizia…
"Filhinhos, nunca procurem vingar‑se, mas deixem aos cuidados de Deus a vossa ira, pois está escrito: Minha é a vingança; eu retribuirei, assim diz o Senhor."
Aquela palavra caiu como uma pedra em seu coração.
A partir de então se submetia aos caprichos lascivos de seu senhorzinho e enquanto era desonrada continuamente ela murmurava baixinho no lamento “Eu sou a Princesa de Kimpanzu, e minha é a vingança diz o Senhor!”
Logo Chiquinha fica grávida.
Ao chegar ao conhecimento do senhor da casa, seu filho Francisco Nicolau o convence que a criança era filha do amor que o escravo Pedro dedicava à escrava Chiquinha e por quem era correspondido.
O velho fica muito feliz e determina o casamento de ambos e a menina também Chiquinha nasce mulata, o que gera algum comentário na região, mas que ninguém se atrevia em falar coisa que fosse a respeito, e o velho pai distraído e ocupado não se deu conta de que a pele do bebê era mais clara do que deveria ser.
E os anos se arrastaram.
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Chiquinha agora Chica, junto com Pedro criaram a pequena Chiquinha que cresceu bela e formosa como a sua mãe fora quando da sua idade, e menina brincava aos alcance dos olhos de Chicolau que ao que parece passou a ter um coração atribulado continuamente e parou após o casamento de seus escravos pessoais, de procurar Chiquinha para contatos íntimos.
A mão de Deus pesou de tal forma sobre a mente deste atribulado herdeiro que numa viagem para Laguna em confissão ao Padre Monsenhor Francisco Xavier Topp, colocou tudo pra fora e confessou seu terrível pecado de estupro e fornicação.
Monsenhor Topp o ouviu com compaixão e lhe deu algumas exigências bem pesadas para só assim lhe dar o perdão dos pecados na qualidade de comissionado apostólico de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Tinha que contar o seu pecado ao seu pai, o Senhor Nicolau Francisco Martins.
Tinha que dar Carta de Alforria e enviar para longe, a fim de afastar o casal e a menina da Casa Grande e conseguir resistir às tentações e fugir de que coisa pior acontecesse, seja reincidência ou vingança por parte do escravo Pedro.
Precisava também reformar o Oratório na entrada da Casa Grande e lá colocar uma imagem grande de Nossa Senhora Maria Santíssima para a qual deveria fazer Aves Marias quatro vezes ao dia, pela manhã, pela tarde, pela noite e levantando também de madrugada.
E o jovem Francisco Nicolau agora com 20 anos de idade, mais ou menos, tudo isso fez e mais, pois onde quer que fosse a consciência o perseguia e lhe acusava falando repetidas vezes em sua mente de “canalha, canalha, canalha…”.
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Na Quaresma de 1850 o Senhor da casa envia todos para a Igreja para lá celebrar as festividades o dia inteiro, todos foram convocados para ir, os da casa e os escravos.
Ninguém ficou na Casa Grande, exceto o pai Nicolau Fernandes Martins, seu filho Francisco Nicolau Martins, João Albino o escravo mais antigo e de confiança da casa, o casal de escravos Pedro e Chica, e a menina Chiquinha.
E logo no hall de entrada ao comando do velho o Oratório foi construído, depois caiado de branco e sobre ele colocadas as imagens de Jesus Crucificado e de Maria Santíssima.
Ao final da obra perto do meio-dia, João Albino ao sinal de seu senhor foi buscar uma carroça com um cavalo atrelado e nela subiram Pedro na frente ao lado de João, e na parte de trás acolchoadas se sentaram Chica e sua filha Chiquinha.
O velho então olha para todos eles e diz com voz solene…
“João Albino é meu escravo desde o nascimento e hoje é a pessoa em quem eu mais confio, ele vai levá-los até Araranguá, onde vocês vão registrar estas três Cartas de Alforria, e aqui neste saco tem ouro que dará para vocês viverem por anos se forem econômicos, vão em Paz e comecem uma vida nova, e que Deus os abençoe!"
Pedro cujos olhos sempre tomados de ódio se arregalam, pega trêmulo e incrédulo o saco de ouro das mãos de seu senhor, e Chica também assustada, olham para tudo aquilo e mudos não sabem o que dizer.
O velho então continuou a falar…
"Não digam nada, sejam cuidadosos, não permitam que ninguém saiba que vocês têm ouro, se escondam na multidão e comecem uma vida nova…
… Quem precisa falar é Chicolau, FALE CHICOLAU!”, disse virando-se para o seu filho…”.
Chicolau tremendo com as mãos uma esbarrando na outra, de cabeça baixa se aproxima da carroça.
Levanta os olhos para Chica, que o observa com desprezo, e olha também para Pedro, cujo ódio é quase tangível no olhar…
"Chiquinha, me perdoa, Pedro me perdoa, vocês foram os meus melhores amigos da minha infância. E eu maculei e estraguei tudo com a minha maldade. Que Deus me perdoe e que vocês um dia também possam me perdoar. Criem a Chiquinha pra mim e do fundo do coração que ela seja muito feliz…".
Ao final, para espanto de todos, Chicolau chorava e os seus ombros se sacudiam num pranto incontrolável.
Um sinal do senhor bastou e João Albino colocou a carroça em movimento e lá se foram eles rumo ao desconhecido de uma vida nova e talvez feliz.
E foi…
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Em Araranguá o tabelião leu a carta de seu amigo o velho Nicolau Fernandes Martins, preparou toda a burocracia para registro das três Cartas de Alforria, e perguntou ao casal, se já que eles tinham a oportunidade de uma vida nova, se não queriam trocar de nome para fins de registro como escravos libertos.
Chica subitamente então diz…
"Sim, se for possível, que Vossa Caridade nos registre como Pedro, Francisca e Sara Brasil…"
Pedro estupefato a olha e ela explica…
“A Chiquinha do Congo ficou para trás, agora viveremos no Brasil, vida nova para nós e nossa filha, eu não serei mais Chiquinha nem Chica, serei Francisca, e a nossa filha não será mais Chica nem Chiquinha, ela será apenas Princesa (Sara)..."
E se aproximando dele bem baixinho disse no seu ouvido, mas João Albino escutou, embora o Tabelião não tenha ouvido..
“... Sara, Princesa de Kimpanzu".
E foi assim que começou…
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Pedro se instalou como sapateiro num lugarejo que anos depois se tornou na cidade de Criciúma, numa casinha que ele comprou com uma pequena parte do ouro, eles moravam aos fundos e na frente dando pra rua instalou a sua sapataria.
A casa tinha um terreno grande nos fundos, uns 70 metros de vegetação e árvores frutíferas e ali a Princesa Sara Brasil correu e cresceu formosa e mais linda que a mãe.
Francisca nunca mais trabalhou e por um mistério não sabido, nunca mais teve filhos.
Nunca mais saíram da casinha nem da região, nem nunca mais colocaram os pés no Siqueiro e tudo aquele passado jogaram numa espécie de Mar do Esquecimento e nisso não se falava.
Toda a família se tornou devota da Santa Igreja Católica Apostólica Romana e Pedro cavou um esconderijo embaixo do armário pesado que ficava na cozinha e lá colocou o ouro recebido, que foi gasto lentamente na educação e sustento da pequena Sara que aprendeu a ler e a escrever, coisas que nem Pedro nem Francisca sabiam.
E foram anos de muita paz e eles foram felizes até que cansados do peso dos anos, tiveram em seus colos sentados os filhos e netos que Sara lhes deu.
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A vida no Siqueiro continuou, o velho Nicolau Francisco Martins faleceu, deixando para o seu filho Chicolau as terras do Siqueiro, contando para ele no leito de morte, que ele não deveria morrer sem antes contar para o seu neto, o local onde havia sido colocado o tesouro da família.
Que era um baú cheio de antigas moedas de ouro da Coroa Portuguesa que ele herdara e que tinham sido acumuladas por seu pai, pelo pai de seu pai e assim sucessivamente, desde que a primeira geração tinha vindo de Portugal e se estabelecido em Laguna.
Chicolau era nesta ocasião recém casado com Dona Joanna Augusta de Jesus, tiveram vários filhos dentre os quais meu bisavô Nicolau Francisco Martins que nasceu em 1874.
Em 1888 veio a libertação dos escravos, Chicolau agora era o senhor das terras, seu apelido esquecido nos tempos da juventude, era agora chamado por Senhor Francisco Nicolau Martins e não pareceu se preocupar quando todos os escravos partiram deixando a terra sem que ninguém cuidasse do cultivo, pois ele sabia e quase mais ninguém, que o tesouro daria para talvez duas gerações sem grandes apertos.
Havia ainda a criação de cavalos, o gado e com contenção e uma pequena criadagem que poderia dar conta de tudo, a terra assim poderia servir de pastagem e descansar por uns anos até que a Roda da Fortuna girasse.
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Em 1898 estava no leito de morte o agora ex-escravo de confiança, o velho João Albino e pede que ele seja chamado.
Dois cavalos foram imediatamente selados e lá foram Chicolau e seu filho Nicolau se despedir do velho João Albino.
No leito de morte, o velho ex-escravo, quase 110 anos de vida dura mas honrada, olha para seu senhorzinho Chicolau, que pegara no colo em tempos de outrora, e que agora era o Senhor do Siqueiro e com voz fraca lhe pergunta…
“O senhorzinho já falou para o senhorzinho Lau onde está o tesouro da família? Hoje estou morrendo, e o senhorzinho passará a ser o único a saber onde está o tesouro, e isso não é bom, isso não é bom…”
"Não desanima João, tu vais viver muitos anos ainda, e o Lau só tem 24 anos e eu ainda de fato não lhe contei nada, mas se tu se recuperar eu te prometo que na viagem de volta, no caminho, hoje mesmo eu conto pra ele…"
O ex-escravo olha para seu antigo mestre, sorri e expira.
Pai e filho ficam ali respeitosamente por algumas horas ainda, e ordens dadas para o sepultamento e Missas para o finado, montaram seus cavalos e retornaram lentamente para a Casa Grande no Siqueiro.
Então Chicolau contou tudo para o seu jovem filho…
Muito havia se passado, mas a emoção da partida de João Albino por quem todos tinham carinho, e a emoção que a história carregava, pois revelava também um segredo triste de sua juventude…
Para espanto do jovem Nicolau, tais emoções fizeram que seu Pai Chicolau contasse uma parte e parava de falar para chorar, contava mais uma parte e parava de falar pra chorar e respirar.
“... De tal forma meu filho que eu e seu avô escondemos o tesouro na…”
Então subitamente caiu do cavalo.
Antes mesmo de chegar ao chão estava morto.
Nicolau puxou as rédeas de seu cavalo e correu para socorrer Chicolau seu Pai…
Mas o infarto tinha sido de tal forma fulminante que ele de olhos abertos como que envidraçados o “olhava" com aquele seu singular olhar castanho escuro e azul claro quase branco.
Chicolau era portador de uma falha genética, que futuramente seria diagnosticada pela medicina moderna como sendo heterocromia, que fazia com quem uma pessoa tivesse um olho de uma cor e outro olho de outra cor, sendo uma falha genética herdada, muitas vezes relacionada a uma mutação benigna no cromossomo 15 que afeta a produção de melanina.
Nicolau de joelhos com o pai Chicolau nos seus braços, chorando na beira do caminho, com os dois cavalos alheios para com a triste cena, comendo capim que nascia livremente à beira do caminho.
Muito se chorou e o pranto foi grande em Pescaria Brava pelas mortes quase que na mesma hora, entre senhor e seu fiel escravo quase que por toda uma vida.
O problema é que após o luto, Nicolau procurou o tesouro… e não achou.
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Com o tempo ficaram conformados, Nicolau assumiu a governança da Casa Grande, eis que agora só havia ele, sua irmã Amélia e a sua Mãe, agora viúva.
A Casa Grande ainda tinha imponência, havia ainda algum dinheiro na escrivaninha do Pai falecido e haviam bens.
O tempo foi passando e a riqueza foi se exaurindo lentamente.
Meu bisavô Nicolau ainda conseguia manter as aparências de certa forma, mas o declínio era inexorável e implacável.
Teve 7 filhos com a Vó Lulu.
Com a sua morte bem velhinho já, numa nova realidade, sem escravos, as terras foram divididas, Tio Antônio ficou com uma parte no Siqueiro e virou homem da terra e foi criado no cabo da enxada, Tio Venésio também ficou com parte das terras, mas se envolveu com corridas de cavalos rústicas numa pista que ele mesmo fez, Tio Patrício vendeu sua parte e foi pra cidade e virou Comerciante e Viajante, e as irmãs Maria (vó Mariquinha), Joanna (Tia Joaninha) e Anna (Tia Aninha) se casaram e constituíram suas famílias, e o que restou da antiga prosperidade, foi usado para enviar o Tio Irineu para Itú para lá estudar para ser Doutor e ficar com as terras de lá como herança para si.
Os dias não pararam de passar, os segundos futuros rapidamente se transformaram em segundos passados, parecia até que o segundo presente era uma ilusão, e todos um a um foram se despedindo desta para a Eternidade em Deus Pai e Jesus Cristo nosso Senhor.
Por fim, o terreno onde ficava a Casa Grande foi vendido, e ela já bem destruída por falta de manutenção e pela passagem do tempo, da chuva, do sol constantes e implacáveis, deixou de ser habitável.
Os tempos de riqueza da outrora rica e nobre família Martins agora eram coisas passadas.
E na mente de alguns poucos que sabiam das histórias dos saudosos, ficou aquela suspeita que o nunca encontrado Tesouro do Siqueiro de Pescaria Brava estava debaixo de maldição ou na verdade talvez nunca tivesse existido.
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Em 1973, mais ou menos, meu Tio Nicodemos por acaso com sede e fome entra num bar qualquer em Volta Redonda, e lá estava na segunda mordida do pastel quando um falastrão chama a sua atenção pela sua fala alta estridente e pela história que contava e se gabava.
O bêbado dizia entre risadas que tinha descoberto um tesouro numa localidade perto de Tubarão no Sul do Brasil e que ele estava ficando rico com isso, comprando dos colonos, uma moeda de cada vez a preço de banana e vendendo uma a uma por uma boa fortuna para colecionadores da Europa…
Que o tesouro tinha sido descoberto recentemente…
E que era um baú cheio até a boca com moedas de ouro do tempo do Império.
E na sua arrogância para provar que não mentia disse que tinha consigo a última das moedas do tesouro e a colocou com estrondo sobre o balcão do bar para que todos vissem.
Tio Nicodemos que era bisneto do finado Chicolau deixa o pastel de lado, se aproxima, pega a moeda na mão, analisa, e pergunta…
“O colega disse Tubarão, mas não seria Pescaria Brava?"
“Issooooo, Pescaria Brava Siqueiro, kkkk, como você sabe disso…?"
“Parece que tinha uma lenda por lá… Mas onde foi encontrado o tesouro pois esta história é a história do tesouro perdido que meu Avô não encontrou após a morte do meu Bisavô…?”
Imediatamente o bêbado "ficou sóbrio” como por encanto e gaguejou…
"Eu, eu, eu… pre… ci… so ir no banheiro!”
"Onde? Onde? Onde? ONDE ESTAVA O TESOURO…?"
E antes de sair correndo rumo ao sanitário, o antes bêbado disse sussurrando…
“Estava debaixo do Oratório de pedras caiadas de branco…”
Tio Nicodemos ficou muito agitado e com o coração na mão, esperou que o homem saísse do banheiro mas ele não retornou mais de lá.
Foi então até ao banheiro, e não tinha ninguém, exceto por uma janela aberta que dava para os fundos do bar, e o vento que por ela entrava, ali não havia nada nem ninguém.
Chegando em Tubarão foi ao encontro dos compradores das terras onde ficava a Casa Grande que como estava muito destruída, os novos compradores decidiram pela sua demolição.
E perguntou se haviam achado algo debaixo do Oratório das pedras brancas da casa.
Nada.
Ninguém sabia de nada.
Não havia tesouro, ninguém sabia de moedas de ouro.
Juravam que ali somente havia entulho, barro socado e pedras lisas de riacho.
E ficou dito pelo não dito.
E em conversa com meu Pai José que gostava de com voz grave fazer frases e máximas de efeito ditas em barítono e que ao final da frase se encerraram num tom de baixo grave, disse enigmaticamente…
“A Maldição do Tesouro do Siqueiro de Pescaria Brava…”
"O quê?” Tio Nicodemos perguntou…
"Talvez tenha sido uma maldição rogada pela Chiquinha do Congo…”
“Mas quem é Chiquinha do Congo?"
Então o Pai José explicou tudo o que sabia da história ouvida da boca do Vô Nicolau nas noites, quando ele ainda era pequeno, e visitava a Casa Grande que ainda funcionava.
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De fato, quando o velho na Quaresma de 1850 enviou todos para Missa em Pescaria Brava…
E na Casa Grande ninguém ficou, exceto o velho Nicolau Fernandes Martins, seu filho Francisco Nicolau Martins, João Albino o escravo mais antigo e de confiança da casa, o casal de escravos Pedro e Chica, e a menina Chiquinha.
E logo no hall de entrada ao comando do velho o oratório foi construído…
Antes de ser fechada a cobertura do Oratório…
A mando do velho, João Albino, Pedro e Chicolau foram até o roupeiro do quarto maior, e de uma porta falsa do pesado roupeiro que lá havia, trouxeram com muito esforço um baú pesado para perto do Oratório ainda inacabado.
O velho abriu o baú e todos viram o tesouro boquiabertos.
O velho pega um saco de couro velho, e pega três punhados de ouro do baú, e transfere para o saco e o amarra com força.
Depois determina que o baú seja colocado dentro das paredes do Oratório.
Obriga que Pedro faça várias viagens e traga baldes de barro para que tudo fique coberto.
Depois Pedro sozinho suado é obrigado a buscar pedras lisas que haviam sido trazidas do riacho próximo e que enfeitavam o redor da casa e elas foram colocadas sobre o barro que cobria o baú.
Satisfeito, o velho senhor da Casa Grande manda que seja fechado com tijolos o Oratório.
E por fim, já perto do meio-dia manda que se pinte de branco todo o Oratório, com tinta feita de cal misturada com água.
Mandou que Pedro fosse se lavar e que trocasse a camisa por uma limpa.
Enquanto Pedro se lavava, sobre o Oratório foram colocadas as imagens de Jesus Crucificado e de Nossa Senhora Maria Santíssima.
Ao final da obra, perto do meio-dia, foi então que João Albino ao sinal de seu senhor foi buscar uma carroça com um cavalo atrelado e nela subiram Pedro, Chica e Chiquinha.
E então o “sol parou" e para espanto de todos, o velho se aproximou da carroça, beijou a menina Chiquinha, sua neta mulata, e deu o saco de ouro para Pedro e em voz de comando disse:
“João Albino é meu escravo desde o nascimento e hoje é a pessoa que eu mais confio, ele vai levá-los até Araranguá onde vocês vão registrar estas três Cartas de Alforria, e aqui neste saco tem ouro que dará para vocês viverem por anos se forem econômicos, vão em Paz e comecem uma vida nova, e que Deus os abençoe…! Não digam nada, sejam cuidadosos, não permitam que ninguém saiba que vocês têm ouro, se escondam na multidão e comecem uma vida nova…"
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Era o ano de 1976, e uma linda jovem negra, de média estatura, imponente, caminhava no calçadão que fica na frente da antiga Igreja Assembleia de Deus no centro de Criciúma.
Na frente desta igreja tinha uma escadaria longa e larga de onde vinham sons da liturgia que ocorria no templo que ficava no topo daquela escadaria.
Ao passar na frente da escadaria, a jovem ouve as seguintes palavras vindas do interior do alto dos degraus daquela grande escada…
"Minha é a vingança…”
Imediatamente a jovem parou e por impulso entrou e subiu pelos degraus da longa escadaria, e lá havia um professor ensinando um grupo de umas 30 pessoas.
Soube depois que era uma escola dominical.
O professor ficou por uns quarenta minutos ensinando que nós os cristãos, deveríamos ser como Jesus tinha ensinado, e suportar o dano quando humilhados, e que não deveríamos buscar a vingança, pois ela era reservada para Deus, e que nós deveríamos ser impassíveis diante das falhas dos outros e que as deveríamos perdoar.
A jovem ouviu e ficou até o fim.
A aula terminou.
Gradativamente todos foram embora.
E ao final o professor desce por último a grande escadaria segurando a mão de seu filho que tinha 6 anos.
No pé da escada a jovem o esperava e diz:
"Com licença professor! Posso lhe falar por um momento sobre a sua aula?"
“Pois não…?”
"Se me permite lhe contar eu passava hoje aqui quando ouvi a sua voz ensinando e como que uma voz interna, alguém dentro de mim me disse ENTRA E OUVE…, mas me desculpe, qual é o seu nome mesmo?"
“José, e o seu?"
Ela então tirou os óculos escuros que usava e disse…
"Eu me chamo Sara Brasil”.
Imediatamente meu Pai José ficou tenso e olhou firmemente nos olhos daquela linda moça.
“Na minha família existe um ditado que diz que - Desde o Congo seis Chicas choraram, mas quatro Saras sorriram, mas você pequenina Sara, nunca esqueça que você é a Princesa de Kimpanzu, por isso nunca se vingue pois minha é a vingança - e então professor José…"
Parou ela para respirar, pois parecia emocionada.
“Eu sempre entendi a parte da minha história, pois eu professor José, eu sou a quinta Sara desta história…”
"Mas eu nunca tinha entendido até hoje a parte da vingança, porque se a vingança era minha, por que eu não poderia me vingar?”
"Com a sua aula hoje entendi que a palavra -minha- desta ladainha que a minha família passou por gerações de boca em boca, é Deus falando, minha (de Deus) é a vingança…"
“Por isso queria agradecer muito a sua aula, e o esperei aqui, só isso, tenha um Bom domingo!”.
Antes que ela se fosse, meu Pai José de uma forma até cerimonial e estranha, pegou sua Bíblia, folheou e retirou dela fotos e papéis com anotações que guardou no bolso do seu paletó e dando a Bíblia para a moça disse…
"Jovem Sara, tudo o que você precisa saber sobre a voz que te disse entra e ouve, está escrito neste livro, comece pelo livro do Evangelho de João. Leia tudo!”
Ela muito constrangida não queria aceitar, mas meu Pai José insistiu.
E ela se foi em direção ao calçadão que ficava na frente da igreja e onde tinha um sorveteiro com uma máquina de fazer sorvete.
Eu ao lado, alheio a tudo, já estava entediado.
“Pai, compra um sorvete pra mim?" eu disse com a minha voz bem fina, como eu falava na minha infância.
“Paiiii… ôoooo Paiiiii…?”
Ele parecia hipnotizado olhando para a moça que se afastava.
"Paiiii?”
"Que foi filho?”
"Compra um sorvete pra mim?”
Ele pegou umas moedas do bolso e me deu e eu saí correndo em direção ao sorveteiro.
A moça estava comprando um também, e me viu chegar correndo.
Ela olha pra mim, sorrindo diz…
“Oi menino?"
“Como é teu nome?"
Com fala bem fina e sem olhar pra ela, enquanto pegava meu sorvete disse…
“Minha Mãe me chama de Tico, de Chico, dependendo o dia…”
"Então teu nome é Francisco?”
Dei risada…
“Claro que não, meu nome é Natã… kkkk, e o seu como é…?”
Meu Pai José de longe viu que ela tirou os óculos, se inclinou para mim, falou comigo, e eu tive meio que um susto e voltei correndo pra ele.
Na volta pra casa, eu chupando sorvete e tagarelando o tempo todo.
Ele quieto como sempre, pensando que talvez a "vingança”, o castigo de Deus, que as Escrituras dizem que poderiam ser cobrados até a quarta geração, talvez teria sido o fato de que nenhuma moeda de ouro do Tesouro do Siqueiro, tinha sido gasta com os filhos e descendentes de Chicolau, exceto os três punhados que haviam sido colocados no saco dado ao escravo Pedro para a criação e sustento da filha de Chiquinha.
“Paiiii"
“Paiiii…”
"Aquela mulher era estranha Pai…"
“Era? Por quê?"
“Eu perguntei pra ela o nome dela Pai…"
“E ela se abaixou e me olhou Pai…”
"E ela é estranha Pai…"
“E sabe o nome dela Pai…?”
"Ela é louca Pai…”
Então meu Pai José, filho da Vó Maria Martins, filha do Pai Nicolau Francisco Martins, filho do Pai Francisco Nicolau Martins (Chicolau), filho do Pai Nicolau Fernandes Martins, sorrindo pacientemente, me perguntou então qual era o nome dela…
E eu sem saber de nada, respondi com voz fina…
“Acho que ela é perigosa Pai…”
"Ela tinha um olho preto Pai…"
"Ela não é normal Pai…”
"Pois o outro olho dela era azul Pai…"
“Azul bem claro Pai…
“Quase cinza Pai…"
"Ela tinha os olhos com cores diferentes Pai…"
E ainda sem respirar eu disse…
“Pai… Ela disse que o nome dela era Sara Brasil, Princesa de Kimpanzu…"
