Cody

 

Cody


...

Ele era lindo!

Chegamos ao supermercado...

Eu e minha filha...

Ela era uma menina bem nova ainda...

Naquela época eles ficavam nas vitrines das lojas...

Trancados numa caixa de vidro...

Era um filhotinho de cocker spaniel...

Branco...
Marrom...
E ruivo...

A coisa mais linda do mundo...

Ficamos mudos eu e minha filha...

Olhamos petrificados um para o outro...

E sabíamos na mesma hora que ele seria nosso...

Na volta pra casa minha filha o segurava no colo como se fosse uma preciosidade, e ele era...

Na primeira semana ficamos com pena e ele ficou dentro de casa...

Cagou o corredor, a sala e mais a cozinha...

Na segunda semana já havia sido promovido a ficar lá fora...

Com direito a casinha, travesseiro, e outros apetrechos que ficavam na nossa ampla garagem...

Lara nossa outra cachorrinha já velha, lhe fazia companhia...

E ele foi crescendo charmoso...

Lindão...!

...

Um dia chegamos da igreja...

Lá estava Cody com Lara nos esperando na porta da casa...

Abri o portão...

E fui entrando bem devagar como sempre fiz...

Para que ele fosse se acostumando em sair da frente do carro...

Talvez eu tenha me distraído...

Talvez tenha sido imprudente...

Mas senti quando o toquei com a roda...

Parei imediatamente...

Saí do carro tremendo...

Ele já estava inerte e agonizando...

Esqueci de minha esposa e da minha filha...

E peguei ele com muito cuidado...

E o levei para dentro da garagem e o deitei no seu travesseiro...

E fiquei ali acariciando sua cabeça...

E alheio ao que ocorria ao meu lado...

Dizia baixinho...:

"Me desculpa Cody...!"
"Me desculpa Cody...!"
"Me desculpa Cody...!"
"Me desculpa Cody...!"

É triste para um homem como eu chorar copiosamente diante da família...

Fiquei ali fora de noite chorando ao lado dele...

Ele não deu um "pio"...

Respirava com dificuldade...

Olhava pra mim sem virar a cabeça...

E foi se passando e partindo para o "céu dos cachorros"...

Mesmo ali o seu olhar me "dizia" que ele confiava em mim e no meu carinho...

Então ele se foi...!

Nunca ninguém tinha sido morto por uma falha minha...

Nunca ninguém tinha morrido nos meus braços...

Cody foi o primeiro...

Depois de muito tempo...

Peguei seu corpo na almofada e o coloquei na sua casinha...

Fechei a porta da casinha e coloquei uma pesada pedra para que não fosse movida até a manhã...

Entrei em casa...

Olhavam assustadas para mim...

Arregaladas minha esposa e minha filha pequena...

Espantadas com o sofrimento dos meus olhos...

Como um autômato fui deitar num quarto...

E me vi na cama errada no quarto da minha filha...

E ali fiquei chorando...

...

Suavemente...

Minha filha pequena...

De camisolinha branca...

Feito um anjinho...

Veio e deitou comigo...

Me abraçou!

E disse com uma convicção anormalmente madura para a sua idade...

"Senhor Jesus! Cuida do papai Natan...!"

...

Um mês depois o veterinário ligou me avisando que eu não tinha passado para vacinar o Cody...

Contei pra ele que infelizmente eu o havia matado...

Ele me disse então...

"Não fique tão triste...! Eu tenho aqui o irmãozinho dele que ninguém comprou...! O senhor pode passar que será seu...!"

Zack vive conosco até hoje (foto)...

...

Um dia sonhei...

No sonho os anos haviam se passado...

E eu também morrera...

Depois das boas vindas...

Depois do celestial agito inicial...

Alguém me toca no braço...

Então me viro...!

Um lindo jovem!

Pele branca quase transparente...

Cabelos ruivos longos com reflexos castanhos amarronzados...

Ele me olha nos olhos e ri com alegria...

"Me conhece?" (Ele diz)

Meneio a cabeça confuso...

"Não lembra de mim? (Ele insiste)

Eu envergonhado digo "Não lembro, me desculpe...!"

Ele então diz e sorri com gosto...

"Eu sou o Cody!"

Fico estupefato...!

Olhos abertos e arregalados...!

Acordo!

...

O quarto está escuro!

Estou deitado na cama...!

As lembranças ruins voltam num relance instantâneo...

No escuro do quarto...

Minha filha dorme em silêncio no meio de nós...

Então eu digo no escuro...

Bem baixinho...

"Me desculpa Cody...!"

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