O casamento


O casamento de Júlia



Filhos crescem…
Rapidamente…

E ela havia se tornado em tudo aquilo que eu queria que ela tivesse se tornado.

Temente ao Pai Celeste…
Linda…
Gentil…
Sorridente…
E 1000 outros predicados que se você tivesse paciência em ler, eu listaria aqui.

Fomos de carro, eu, minha esposa, ela e meu futuro genro, visitar o local pretendido para as bodas…

Que dia maravilhoso…!
Que viagem saborosa de ser vivida.

Uma hora e meia de carro…
Sem pressa, oitenta km/h no máximo…

No meu clássico XSara, que nos últimos 20 anos, me levara para todos os lugares…

Ao chegar, entramos num estreito caminho de pedras que nos levou a um paraíso construído no meio de árvores…

Tudo muito lindo…
Clássico…

Numa arquitetura que me lembrava a Alemanha ou Áustria, lugares onde nunca estive, mas que eu tinha visto em filmes e fotos.

A casa era feita de várias alas…

Casa principal…
Casa de hóspedes…

Cozinha..
Atelier…

Casa do caseiro…
Das galinhas…

E demais construções que eu não tive tempo de explorar.

Ao redor da casa, um grande gramado que me fizeram lembrar do gramado ao redor da mansão onde viveu outrora o cineasta Charles Chaplin com sua numerosa família…

Caminhamos por ali e olhávamos encantados aquele lindo local…

Saindo da casa num caminho gramado que subia uma pequena colina verdejante, no topo há uma Capela de Pedra com vitrais coloridos onde claro, testei a acústica, cantando um trecho da música “Pai Nosso que estais no céu”...

Na frente da Igreja uma cruz de pedaços de madeira, fui em pose de crucificado, fotografado pela minha Filha que não se continha em esconder que no seu coração já havia escolhido e tinha certeza de onde seria o local que iria se casar…



Não sei quando comecei a rascunhar a festa e fazer os cálculos do orçamento de tudo aquilo que eu queria proporcionar para a minha querida Filha…

Não lembro se foi já na viagem de volta à noite, com neblina e chuva, no silêncio do carro escuro depois daquele dia maravilhoso que se encerrava…

Ou se foi no outro dia quando sentado na sala da minha casa, de poucos metros quadrados, adaptada por mim, no que em outros tempos tinha sido o porão e garagem da casa do meu sogro…

Mas os preparativos precisavam ser feitos…

E minha mente não se conteve, impressionado que estava por tão requintado local que tínhamos visitado no dia anterior…

Então pensei…



No sábado de manhã quando os parentes mais próximos chegassem para se hospedar e passar o dia no local…

E também depois quando os demais, cerca de 1000 convidados chegassem para a festa, e que estariam hospedados em hotéis da região de Tijucas do Sul, de São José dos Pinhais ou mesmo de Curitiba ou Joinville…

Cerca de 20 empregados estariam esperando todos de uniforme, a saber, numa impecável libré verde com calça preta, e coletes, camisas e gravatas borboleta imaculadamente brancas…

Estariam a disposição para servir bebidas, gostosuras e atender o que fosse que os convidados tivessem o desejo de degustar no decorrer do dia…

Na cozinha, equipes de cozinheira, assistentes diversos, em turnos de 4 equipes a cada 6 horas, estariam assando, cozinhando, e preparando o que o requintado e exótico gosto dos convidados viessem a pedir.

No salão principal um pianista clássico indiano com um turbante azul preso com uma pedra de brilho fulgurante, estaria tocando serenas músicas para que as pessoas de dentro da casa e outras não muito longe, ali no gramado próximo, tivessem um fundo musical para desfrutar daqueles momentos…

5 limusines estariam de prontidão para buscar e levar os convidados hospedados nas cidades já citadas.

Ao lado no vasto gramado, estaria montada uma grande base para receber o pouso de diversos helicópteros que trariam de Araras os parentes do noivo…

Floristas circulariam pelo ambiente preparando tudo com flores e enfeites outros que tornariam o local mais bonito…

Seria possível ouvir o burburinho das crianças correndo pela casa e pelos gramados ao redor…

Dos quartos viriam os gritos e conversas animadas das damas da noiva, que ao se vestirem, teriam ao seu redor costureiras de plantão que fariam os últimos ajustes nos vestidos…

Na entrada jovens arrumariam em centenas de pequenas cestas, bocados de pétalas de rosa que seriam lançadas sobre os nubentes quando eles saíssem para viajar rumo a lua-de-mel que estaria já reservada em requintada vila no interior da Sicília na Itália, com avião já marcado e confirmado, que partiria no dia seguinte, domingo, precisamente às 17:45 minutos, hora local.

No entardecer do dia, antes do escurecer, pois na Capela de Pedra não havia luz, os convidados estariam esperando a noiva chegar…

E ela chegaria no meu Fusca 1971 amarelo colonial, que lentamente guiado por mim se aproximaria de longe, por aquele caminho idílico todo verde, que poderia facilmente ser cenário de filmes de Barbara Cartland…

Enquanto o Fusca lentamente viria em direção à capela de pedra, flamingos que ali elegantemente desfilariam, assustados com o barulho do clássico motor refrigerado a ar do veículo alemão, correriam em direção à lagoa próxima…

Antes do sermão do Reverendo, ao fundo dentro da Capela de Pedra, os convidados ouviriam requintado e famoso tenor cantando “Nessum Dorma”...

Ao final da cerimônia, todos caminhariam em procissão atrás do Fusca que agora enfeitado de dezenas de fitas brancas e latinhas vazias, iria na frente e lideraria a procissão dos demais convidados que caminhariam de volta, descendo da capela em direção ao local da festa…

A escuridão não seria problema pois os empregados de libré verde e branca, indicando nas cores de seus uniformes, o voto de esperança e paz para o futuro dos noivos, estariam dos dois lados do caminho, formando uma trilha iluminada, cada um deles segurando uma discreta tocha acesa na mão…

Na metade do caminho já daria para sentir o cheiro suave de quatro javalis que estariam sendo assados ao redor da casa, girando lentamente sobre o fogo, com uma maçã na boca, salsas nas orelhas e cenouras no c…….

De repente antes que todos chegassem na grande casa, os noivos ficariam em pé na abertura de teto do Fusca, a noiva sorridente acenaria para todos, e todos quase que em uníssono gritariam “Vida longa e feliz aos noivos!”, e outras expressões de júbilo, que não teriam sido ensaiadas por ninguém…

E ato contínuo, o céu “explodiria” em fogos de artificios coloridos, para deleite dos convidados, e esplendor daquela noite singular que se iniciava…

Ao apagar dos fogos, imediatamente 200 drones desenhariam no céu com suas luzes os dizeres “Mateus e Júlia, forever!”

Enquanto todos maravilhados observassem as luzes dos drones no céu, ao fundo seria possível ouvir a orquestra de quarteto de cordas, violoncelo, viola, primeiro e segundo violinos, tocando “Clair de Lune” de Claude Debussy…



“Nataaaaaaaan…”
“Nataaaaaaaan…”
“Nataaaaaaaan…”

Me esforço para focar meu cérebro nos planos...

Entretanto, distraidamente, volto meu olhar para a porta da sala onde eu estava sentado em meus devaneios e planos de bodas…

E vejo minha esposa me chamando…

Olho para ela sem olhar…
Me esforço em voltar para a realidade da nossa humilde sala…

E disfarço minha irritação por ter sido abruptamente retirado daquela que na minha mente eram as bodas de Júlia num local que facilmente poderia ter sido um cenário equivalente a Downtown Abbey…

E com gentileza ouço o que ela está falando comigo…

E ela me diz…

“Querido, você pode parar de ficar aí deitado e sonhando, e vir me ajudar…?”

Com um sorriso amável e hipócrita eu pergunto…

“No que posso te ajudar, querida?”

E ela enterra meus sonhos e devaneios com poucas palavras quando diz…

“O cheiro está ficando insuportável, vai lá fora juntar os cocos dos cachorros…”

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