Estou pronto!
Estou pronto!
...
O dia foi bem difícil.
Às 5 da manhã meu Pai José teve ardência no coração, mas reservado como sempre é, calou.
Às 8 com calma avisou em voz baixa a minha irmã.
Ato contínuo fui chamado para o levar ao Hospital.
Imediatamente ao chegar no Pronto Socorro, foi levado a uma sala de emergência e os exames começaram.
Por diversas vezes me chamaram no corredor para dar um retorno do que estavam fazendo.
Detalhes...
No final da tarde fui avisado que ele seria internado e que eu poderia entrar e falar com ele, pois ele tinha que ser preparado para ser levado para a UTI e não queria ser despido pela enfermeira.
Entrei, brinquei e conversei enquanto trocávamos a roupa dele por um traje hospitalar.
Ele deitou então eu perguntei.
"Então Seu José?"
"Está pronto?"
Ele olhou pra roupa e disse "acho que estou".
Mas olhando nos meus olhos percebeu que eu falava de outra coisa.
Então eu chorei, e eu tive que disfarçar para ele não notar, e o que me fez chorar foi o que meu Pai José me disse quando eu lhe falei que ou ele melhoraria, ou se encontraria com Jesus face a face, e então ele me disse:
"Nas duas hipóteses, nos veremos de novo...
... Estou pronto!"
Fui convidado a sair da sala e no corredor eu nada via nem ouvia.
Ecoavam na minha mente apenas as palavras...
"Nos veremos de novo...!"
Que o Pai Celeste guarde meu Pai José segundo a Sua Santa Vontade.
Algum tempo depois a maca saiu da sala e juntos subimos para a UTI, eu, ele, duas enfermeiras e a médica.
O elevador de metal polido.
A respiração dele bem fraquinha.
Lá chegando fomos separados, ele sendo levado para a UTI.
E eu convidado a ficar numa sala de espera.
Na sala de espera da UTI tem sofás para os parentes e amigos que aguardam.
Lá eu estava triste pensando.
Nas mãos, bolsas de plástico com as roupas e sapato dele, a sua bengala encostada na minha perna, as alianças que ele tinha me entregue no bolso.
Então entrou um menino, seu pai e sua, imagino, avó.
Sentaram, e o pai mandou o menino ler em voz alta um texto, mas antes o mandou procurar o texto sozinho na Bíblia aberta que lá tem, lhe dizendo o capítulo e o versículo a ser procurado.
O menino bem pequeno, uns 8 anos no máximo.
Com as pernas tortas para dentro.
Os dois pés voltados para dentro, mostrando ser portador de alguma deficiência nas pernas.
Com um tênis azul claro de cano alto.
Levou um tempo para achar o texto.
Mas o achou sozinho.
Então ele ao achar queria ler todo o capítulo.
Mas o seu pai disse para ler apenas uma parte.
Então ele leu em voz infantil e todos na sala ouviram a sua voz fina de menino, numa leitura bem devagar.
Num primeiro momento, a mente cheia de pensamentos, tristezas e dúvidas, não prestei atenção na leitura da voz fina, mas ele continuava a ler, então passei a entender o que ele dizia...:
"... "Você é o meu servo, Eu o escolhi e não o rejeitei; não tema, porque Eu estou com você; não fique com medo, porque Eu Sou o seu Deus. Eu lhe dou forças; sim, Eu o ajudo; sim, Eu o seguro com a mão direita da Minha Justiça."
Imediatamente lembrei de meu Pai José.
Qual a probabilidade de isto ocorrer assim de forma espontânea...?
Para mim nenhuma.
É isso!
Não há porque temer a tempestade da vida.
O capitão do barco é Jesus.
Se cairmos no mar, Ele o nosso Mestre sabe andar sobre as águas.
Se a tempestade ficar ainda pior, Ele tem poder sobre os mares e os ventos, e ambos lhe obedecem.
Se mesmo assim a morte chegar, do outro lado Ele estará nos esperando com um sorriso franco e pronto para enxugar dos nossos olhos toda a lágrima.
...
"Não temas!"
"Em qualquer hipótese, nos veremos de novo."
"Estou pronto!"
