O Velho e a Mariquinha
O Velho e a Mariquinha
…
Ele vivia no Siqueiro.
Sim, meu Bisavô.
Nicolau Francisco Martins.
Barba branca hirsuta.
Olhos entristecidos pela dureza da vida.
Rugas da vida espalhadas ao redor dos olhos.
Seu pai tinha sido apenas uma geração passada, rico e próspero.
Com a abolição da escravatura seu mundo mudou radicalmente.
Ainda tinha terras, mas não tinha mais escravos nem capital.
Toda a família precisou ir para a lavoura.
Ele culto e letrado.
Com a mudança do paradigma do mundo, os filhos não tiveram o privilégio da mesma educação refinada.
Seus filhos rapidamente foram enviados para cuidar da lavoura e endurecidos pela enxada no labor de sol a sol.
Permaneciam a casa grande, as terras, a família e a fé.
Com grande tristeza chegou aos seus ouvidos já velho a notícia que a filha Mariquinha (nome carinhoso dado para as que se chamavam Maria), tinha se tornado crente.
Daquelas da Assembleia de Deus de antigamente.
Cabelo sem cortar.
Sem maquiagem.
Despojada de cuidados com a beleza.
Mas com fervor pentecostal a ponto de falar em línguas estranhas pelos cotovelos.
O velho não aguentou…
A tristeza o derrubou.
Afinal sua filha predileta, havia abandonado a verdadeira fé na Santa Igreja Católica Apostólica Romana e da devoção em hiperdulia da Santa Virgem Maria Mãe de Deus.
O velho ficou prostrado de tristeza e ira.
E disse em ira e lágrimas “Minha filha Mariquinha morreu!”
E assim ficaram por anos.
Sem se falar…
Ela em Tubarão proibida de aparecer na sua frente e de visitar seus pais.
Ele resignado, parecendo ainda mais velho e triste.
Dividido entre pensamentos de amor, logo afugentados por uma ira piedosa.
Os anos se passaram.
O sol nasceu e se pôs por centenas e centenas de vezes.
O velho rezando.
A filha orando.
O velho em respeitosas Ave Marias ditas com devoção e fé.
A filha com orações fervorosas, com lágrimas e muita língua estranha.
Foi então que o velho adoeceu.
As “curandeiras” locais não deram conta.
O médico de Laguna demorou para chegar e quando chegou o diagnóstico foi sem esperanças.
Ninguém sabia o que ele tinha.
Não havia cura para o que não se sabia.
O velho de cama.
A notícia se espalhou.
E em Tubarão chegou a notícia, “Vovô Nicolau está morrendo…!”
“Sim, desenganado pelo Doutor…”
“O padre já está de prontidão para dar a extrema unção…”
Mariquinha, imediatamente manda buscar o velho.
Com muito cuidado e zelo contaram para o velho que a Mariquinha mandara buscá-lo para Tubarão.
O velho nem forças mais tinha.
Num gesto com a mão meio que disse “Que seja!”
E assim prontamente preparado um carro de boi, lá foi, entre cobertores e travesseiros, acomodado e deitado o velho triste.
E o carro do Boi foi devagar emitindo aquele som de madeira miando, que só os antigos saberão identificar como é, já que hoje os bois não vivem mais na cidade e nem mais é permitido que tais veículos circulem nas mesmas.
A viagem durou horas, a distância é relativamente pequena para os dias de hoje, mas o passo do boi era miúdo e devagar.
O boi sem pressa não sabia que as portas da morte se aproximavam do velho.
E indiferente seguia na sua velocidade.
Chegando em Tubarão, imediatamente Mariquinha assumiu o comando de todos.
E à todos dava ordens…
E o velho foi acomodado no quarto próximo à cozinha, onde eu vi quando criança minha avó passando roupas algumas vezes.
Cama simples.
Móveis de madeira simples.
Um roupeiro daqueles antigos que se eu fecho os olhos ainda consigo visualizar.
Tudo muito simples e pobre.
Os outrora orgulhosos e ricos da família Martins, agora viviam na total simplicidade.
E ali o velho ficou deitado.
Em silêncio absoluto, resoluto deixando claro que estava ali contra a sua vontade.
E a rotina começou.
Muito chá de ervas que Mariquinha para ninguém contava para o quê serviam.
Nenhum de seus filhos herdou este dom da Mãe.
O nome era Homeopatia.
Mas ela tinha um livro velho do assunto.
E lá tinha a descrição para a cura de quase tudo.
Cuidava do velho de sol a sol e de noite e de madrugada também, sentada numa cadeira ao lado da cama, ou na frente do fogão preparando algo para ele comer, ou bem perto do velho que bastava um suspiro dele que ela já estava ao seu lado.
Com o tempo o coração do velho começou a ruir, mas ele manteve a aparência de turrão.
Não iria trair a fé de nosso Senhor Jesus e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Quase que diariamente, no início da noite todos os filhos da Mariquinha se aproximavam e no quarto do velho cantavam hinos cristãos, riam, comiam canja de galinha, ou galinha ensopada, farofa de banana, pirão d'água de farinha azeda com linguiça, liam Salmos, oravam em línguas e choravam.
Tudo ao mesmo tempo e misturado.
Na saída pegavam a mão do velho (“A sua benção Vovô?”) beijavam e no início fraco e sem falar, ele nada dizia.
Mas depois ele passou a dizer “Deus abençoe…!”.
Ninguém sabe quanto tempo passou.
Mas foram meses e meses.
Muita sopa, chá, ervas, cuidado, orações, leitura bíblica, choro, riso, gargalhadas, tudo ao pé da cama do velho…
Até que um dia ele ao receber o beija mão de uma neta disse “Deus te abençoe, minha filha…”.
O “minha filha” chamou a atenção de todos, embora todos tenham disfarçado e fingido que não tinham percebido.
Mais tarde depois que todos iam embora, era o “pior” momento para o velho.
Dois quartos ao lado era o quarto da minha vó Mariquinha.
E ela antes de dormir, dobrava os joelhos e orava uma hora sem parar, em voz alta…
Dava para ouvir sua voz forte e grave de contralto baixo ressoando por todas as paredes da casa de madeira fina…
Orava por cada filho, filha, genro, orava pelo velho, citando nome de cada um deles…
Na escuridão do quarto o velho nos primeiros dias ficou perplexo.
Como podia orar tanto a Mariquinha…?
Não bastavam os cultos e reuniões ao pé da sua cama lotando um quarto que tinha uns 3 metros por 5 metros no máximo?
Ainda orava das dez horas até perto das onze…?
Eu dormi algumas vezes no quarto que ficava entre o quarto da minha vó e do quarto do meu bisavô e tive a mesma experiência.
Ninguém pode esquecer o “aleluia” que minha vó proferia.
Difícil escrever como era.
Mas vou tentar…
Era mais ou menos assim…:
“ÁlelÔÔÔÔia, ÁlelÔÔÔÔia, ÁlelÔÔÔÔia!”
Com um fervor e uma impostação de voz que eu vi poucos fazerem com naturalidade, mas que alguns de seus filhos imitavam sem tanta autoridade piedosa.
O velho inicialmente no quarto com espanto ouvia, depois foi se quebrando emocionalmente aos poucos.
Os meses passaram e ele para espanto de todos do Siqueiro, ficou bom.
Um dia, já curado, ainda com certo orgulho, mas por dentro totalmente quebrantado pelo carinho de todos e em especial por Mariquinha que naqueles meses todos, absolutamente tinha dito seu nome todos os dias diante de Deus em oração fervorosa…
Mandou que da fazenda fosse trazido seu cavalo, um corcel preto de pêlo brilhoso e escorrido.
No dia da despedida, todos vieram se despedir do velho.
Ele abençoou a todos…
Abraçou a filha Mariquinha disfarçando as lágrimas.
Montou no cavalo arisco por causa da saudade do carinho e da voz do velho, e que sentido o cheiro do dono, deu um giro de 180 graus que o velho inteiramente domou, mostrando toda a sua força restabelecida.
Então finalmente ele disse o que estava engasgado na garganta e que o orgulho tinha travado…
E em voz alta, máscula, e autoritária exclamou para todos os seus netos que em despedida esperavam que ele partisse naquele cavalo que com ele formava um par altivo.
“Que NUNCA MAIS alguém ridicularize a fé da minha FILHA Mariquinha na minha frente! O Deus dela é o mesmo que o meu Deus! NUNCA MAIS alguém se atreva a falar da fé e do Deus da minha filha…! DEUS TE ABENÇOE MINHA FILHA…!”
Com as pernas apertou os lombos do corcel e saiu altivo em galope ligeiro…
…
A partir daquele dia a filha voltou a ser filha, o velho voltou a ser Pai…
Cada um respeitando os limites dos paradigmas da fé de cada um.
Ele continuou católico romano com devoção, piedade e muita reza.
Ela continuou crente pentecostal com fervor, línguas e muitas orações.
As famílias passaram a se visitar indo para lá e para cá, do Siqueiro para Tubarão e de Tubarão para Siqueiro.
E ele viveu ainda alguns anos, foi no casamento da filha mais velha da Mariquinha.
Tenho foto deste momento.
Numa Igreja Evangélica da “Assembléia” de Deus, que na época tinha acento gráfico.
E o velho não se furtou em lá estar para honrar sua amada Mariquinha e sua neta Luíza.
E o velho não se furtou em lá estar para honrar sua amada Mariquinha e sua neta Luíza.
E assim cada um dentro dos limites da sua fé, de alguma forma deixaram o amor triunfar.
Muitos anos se passaram e eu visitei sua sepultura na Pescaria Brava, logo atrás à esquerda da antiga Igreja Católica que lá está até hoje, onde meu bisavô comungava, e onde foi sepultado.
Na sua sepultura tem a sua foto, bigode farto branco, semblante de homem sofrido, mas que em vida soube amar acima de sua compreensão de fé.
Descanse em Paz nobre velho.
Minha Vó Mariquinha também já partiu.
E eu para espanto talvez dos meus parentes mais “ortodoxos”, sei comigo mesmo que ambos se encontraram e estão hoje juntos no mesmo Paraíso, junto do Pai Celeste e de Jesus nosso Senhor.
Sim, o amor derrotou o orgulho…
…
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine…
Portanto, suportem-se uns aos outros e perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outra pessoa.
Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros.
E acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição…”
