Salada de beterraba


Salada de beterraba 

Tio Nicolau fez intercâmbio nos USA quando era jovem.

E lá uma família o recebeu e ele tinha o que ele chamava de Mãe Americana.

E por gratidão, imagino, ele se disponibilizou para receber aqui no Brasil, jovens que queriam fazer intercâmbio aqui.

Veio uma jovem.

Kethy.

E ele resolveu mostrar para ela o que tinha de mais lindo por estas Terras de Santa Cruz.

E a trouxe numa viagem aqui para o Sul, para mostrar a Lagoa de Laguna e Imaruí iluminada de noite.

Para mostrar as praias lindas aqui do sul.

Enfim…

E como ele sabia que eu o obedecia em tudo, sem falar comigo ele decidiu que eu mais ou menos da idade da Kethy, eu seria a companhia perfeita.

Não deu nada certo.

Eu era, ainda sou, tímido com pessoas que me são estranhas.

Ela era tímida.

No primeiro olhar já não deu química.

E havia a barreira da língua.

Barreira intransponível pois ela não falava bem português, só o elementar.

E o meu inglês nunca foi muito além de my name is, the book on the table, e I’m fine thanks…

Mas, obediente eu fui gentil com a moça, ela muito educada, também constrangida por ele Tio forçar as relações.

E assim lá pelos meus 17 anos fizemos juntos uma viagem para Tubarão e região.

E depois, tadinha, ela ficou um tempo na nossa casa vivendo conosco.

Ela deve ter sofrido aquela menina, pois a nossa rotina era trabalhar ou estudar durante o dia e Igreja todas as noites de fio a pavio.

E quem não é do “ramo", nada mais chato existe que isso.

Segunda, escola teológica...

Terça, culto de oração…

Quarta, ensaio do conjunto dos jovens…

Quinta, culto dos jovens…

Sexta, ensaio do Coral…

Sábado, ensaio da banda, orquestra e culto de doutrina…

Domingo, escola dominical, ensaio da banda e culto público…

Nem eu aguentava tanta "santidade”, imagina aquela jovem menina americana tendo que participar de quase tudo isso e quase todas as noites…?

Deve ter sido o pior intercâmbio da América latina em todos os tempos.

Não bastasse, o Tio Nicolau também sem combinar comigo resolveu me educar.

Famosa era a minha chatice pra comer.

Nada de salada!

E ele resolveu me colocar na linha, e assim provar para o meu Pai José e para a minha Mãe Miquita que ele conseguiria me educar em apenas uma semana, aquilo que em 17 anos eles não tinham conseguido.

Lá fomos viajar para Tubarão naquele Passat branco que ele tinha.

No banco de trás eu e Kethy mudos, trocando olhares tímidos e sem saber o que fazer, totalmente deslocados e constrangidos.

Em Florianópolis ele me pergunta se eu conhecia algum restaurante bom.

E eu disse que perto da Ponte Nova logo à direita tinha uma Churrascaria Ataliba.

Ele imediatamente se interessou.

Ele era um bom garfo.

Lá chegando sentamos, e ele quando levantamos para nos servir, disse enérgico: "Quero que você escolha uma salada para comer hoje…!" 


😳


Tensão…

Eu sabia que ele não aceitaria desobediência.

Eu sabia da minha crise de ânsia de vômito quando forçavam salada…

Minha Tia Patrícia, um amor de pessoa, sempre muito sábia deixou, em minha defesa, escapar uma interjeição “Nicolauuuu!" 

Mas ele foi irredutível!

Eu não iria desobedecer nem ser repreendido por ele na frente daquela menina americana tímida.

Me servi do que eu gostava, arroz, feijão, carne e batata frita.

E bem dividido no lado esquerdo do prato coloquei uma farta porção de beterraba.

E fui almoçar olhando ele abertamente…

Quando ele viu o meu prato ele estufou de felicidade.

Era orgulho puro.

Ele conseguira em poucos minutos o que meus Pais não tinham conseguido em 17 anos.

Ele era o Mestre…

E eu dei corda, e comia a beterraba olhando pra ele nos olhos.

Até que não era ruim aquela coisa que manchava de rosa todo o arroz que a gente tinha ao lado no prato.

Ele ficou tão feliz com sua capacidade de me domar, e no restante da viagem ele me deixou em paz e não mais me regulou em nada sobre comida.

Ele já havia provado o seu ponto.

Viagem feita…

Retornamos…

Ao chegarmos em Joinville ele não se cabia em satisfação e fez questão de dizer isso para os meus pais.

“Eu, sim eu fiz ele comer salada na viagem…”

Meu Pai José olhou pra mim e eu queria sumir…

Apertei o botão do mudo e nada disse.

Meu Pai então perguntou…

“Foi mesmo?" 

“Foi sim, o segredo está na autoridade, eu mandei e ele comeu…" 

Meu Pai então bem paciente e incrédulo perguntou…

“Que salada ele comeu?" 

“Beterraba!", ele disse, tadinho, com muito orgulho da sua capacidade de colocar na linha jovens rebeldes como eu (rebelde pra comer, no mais eu era bonzinho e tanso em tudo).

Então…

Houve um silêncio de uns 4 segundos.

Então minha Mãe Miquita, meu Pai José, minha irmã Sara e meu irmão José Martins caíram numa sonora gargalhada…



KKKKKKKKKKK

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KKKKKKKKKKK

KKKKKKKKKKK

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KKKKKKKKKKK

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O Tio Nicolau ficou com ar perdido sem entender nada perguntado “O que foi? O que foi?" 

E meu Pai José disse lentamente e rindo…

"Beterraba é a única salada que ele gosta…" 

Olhei arregalado para o Tio Nicolau, ele agora sabendo que eu tinha feito ele de bobo, me olha perdido e com orgulho ferido…

Eu aperto o botão desaparecer e saio de perto…

Só fui vê-lo novamente na despedida e fiquei longe.

Quando muitos meses depois nos vimos novamente ele tinha acho, esquecido do assunto, um homem sempre esquece dos fracassos de seu passado, e se concentra nas vitórias, e esquecido não falou mais no assunto comigo.

Mas depois disso nunca mais ele tentou me fazer comer salada.

E se era contido quando lidava comigo, ficou ainda mais contido.

Mas sempre me tratando bem.

E eu sempre pisando em ovos com ele, retribuía com gentileza.



Perdoa Tio!

Mas salada não tem como.


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